Header

Uma entrevista inédita

Sem saber como fazer uma entrevista inédita, Beatriz lembrou-se das aulas de catecismo e teve uma idéia

Lívia Natsue Salvador Uchida

uma entrevista inedita - rae 78_3.jpgConcluindo a aula, a professora surpreendeu todos os alunos da classe. Ao invés de mandá-los responder a intermináveis questões gramaticais, ela disse simplesmente:

- Para a próxima aula quero que cada um faça uma entrevista. Vou deixar vocês escolherem a pessoa e o tema, dando preferência para os assuntos que sejam ao mesmo tempo interessantes e pouco comentados. E saibam: darei a melhor nota à entrevista mais original!

Houve um alvoroço na sala, pois os alunos se sentiam muito importantes ante a perspectiva de entrevistar um adulto. À hora da saída, eles comentavam entusiasmados seus planos entre si.

Beatriz, entretanto, estava pensativa. Ela havia cogitado várias possibilidades, mas nenhuma lhe pareceu inédita. A indicação da professora, que esperava um tema "ao mesmo tempo interessante e pouco comentado" rodava em sua cabeça como um problema insolúvel. De repente, vieram-lhe à mente as aulas de catecismo, de que tanto gostava, e ela teve uma idéia: "Já sei! Quero fazer uma entrevista no Inferno, para saber como as pessoas foram parar lá! Garanto que este é um tema no qual ninguém está pensando!"

Chegando em casa, ela começou a rezar a seu Anjo da guarda, pois queria lhe fazer uma proposta. Enquanto persistia na oração, viu um clarão celestial se acender e surgiu a figura formosíssima de seu Anjo protetor, que lhe disse:

- Ouvi sua oração, Beatriz. Diga- me o que deseja, e se seu pedido for conforme à vontade de Deus, você será atendida.

- Meu bom Anjo - respondeu a menina com coragem - tenho um pedido muito especial: quero fazer uma entrevista no Inferno, para saber por que as pessoas foram parar lá. Sei que é um lugar terrível, por isso não quero ir sozinha. Por favor, venha comigo, pois eu quero entrar e sair!

O Anjo olhou-a com gravidade e disse:

- Pense bem, pois você vai sofrer muito! Tem certeza do que está pedindo?

- Tenho sim! Isso é tudo o que eu quero!

Então o Anjo levou Beatriz para o terrível lugar de expiação eterna. Conforme iam-se aproximando, ela ouvia gritos de revolta e desespero, e um insuportável cheiro de enxofre tomava conta do ar. A pequena repórter agarrou-se ao seu celeste protetor, a quem não parava de repetir:

- Não me solte! Por favor, não me solte!

Finalmente, chegaram diante das imensas portas do Inferno, as quais se mantêm fechadas pela justiça de Deus. Quando elas se abriram, Beatriz deparou com um triste espetáculo: um número incontável de almas padecendo de indizíveis suplícios e queimando constantemente. Junto a cada réprobo estavam demônios que os atormentavam por seus pecados, agravando ainda mais aquele quadro desalentador.

Auxiliada por especial graça de fortaleza, Beatriz aproximou-se de um condenado e lhe perguntou:

- Diga-me, como você veio parar aqui?

Gritando, ele respondeu em meio às chamas:

- Durante minha vida eu fui cristão, recebi o Batismo e os outros sacramentos. Mas... ai! ai! nunca quis saber de rezar, achava que a oração era uma prática para os bobos, e por isso não tive forças para perseverar na Lei de Deus. Se eu tivesse rezado, não teria cometido os pecados que me trouxeram para cá e agora seria feliz no Céu!

- Mas só por isso?! Rezar é tão fácil! Não custa nada!

- É verdade - respondeu a alma danada - mas quem se lembra disso enquanto vive? Ah! Se eu soubesse o valor da oração quando estava na Terra... Agora é tarde demais!

Dizendo isto, afundou-se com maior desespero em seus suplícios, e já não falou mais. Impressionada, a menina voltou-uma entrevista inedita - rae 78_1.jpgse para outro condenado e interrogou:

- Quem é você e o que faz aqui?

- Eu sou um miserável que cometi grandes crimes e carreguei os piores vícios durante a vida! Sou um maldito, mas teria me salvado certamente se tivesse rezado, pedindo perdão a Deus! Meus delitos eram grandes, mas maior é o poder da oração!

- Que incrível! Isso é exatamente o que me disse o anterior! - exclamou Beatriz.

- Ai! Infelizes todos nós que estamos aqui, que nos condenamos porque não soubemos rezar... Agora os justos estão na posse de Deus, felizes para sempre, e nós aqui penando. Que inveja! Eu não agüento mais ficar neste lugar!

Carregado por um Anjo maligno, o precito sumiu nos abismos, de onde subia seu grito inconformado:

- A oração! Teria bastado a oração! Aflita, a repórter diz para seu Anjo:

- Por favor! Tire-me daqui! Não tenho mais forças para ver estes horrores!

Ao transpor as portas em chamas, a menina estava exangue, e disse ao celestial companheiro:

- Meu Anjo, eu lhe agradeço. Mas como vou apresentar uma mensagem tão dura para as pessoas? Por favor, para terminar o pedido, eu queria ir ao Céu entrevistar alguns bem-aventurados, ainda que fosse logo na entrada!

- Preciso antes perguntar a São Pedro se podemos entrar. Venha comigo!

E foi assim que Beatriz subiu ao Céu, onde estava o primeiro pontífice guardando o portal de ouro. O Anjo fez-lhe uma reverência e disse:

- Venerável Apóstolo, venho pedir que esta minha protegida possa entrar no Reino dos Céus a fim de entrevistar os bem-aventurados.

São Pedro fixou o olhar na pequena repórter e exclamou:

- Mas esta menina não pode entrar aqui! No Céu entram apenas as almas que rezam muito, e percebo não ser este o seu caso.

Embora envergonhada, ela não se deu por vencida:

- Por favor, São Pedro! Prometo que vou rezar bastante daqui para frente! Pense no bem que a entrevista pode fazer a muitas almas!

- Se o motivo é este, vou abrir uma exceção.

Beatriz viu as portas do Céu se abrirem, e uma felicidade extraordinária invadiu sua alma. Em meio a luzes, perfumes e cânticos como jamais vira na Terra, estavam os coros angélicos e dos bem-aventurados. Ela percebeu que a seu lado caminhava uma rainha de grande beleza, a quem perguntou:

- Diga-me, ó rainha, como veio para o Céu?

uma entrevista inedita - rae 78_2.jpg- Sabe... eu não sou uma rainha. Na Terra, eu era uma cozinheira! Enquanto mexia a panela ou limpava o chão, eu estava rezando. Cumpri com minha missão e com meus deveres, é verdade, mas hoje me dou conta: consegui praticar a virtude porque rezava muito!

Quando Beatriz ia fazer mais perguntas, o Anjo lhe disse:

- Tenho que levá-la para a Terra, pois o tempo já se esgotou.

- Não! Deixe-me ficar, pois aqui sim está a felicidade!

- E a promessa de voltar à Terra para rezar mais?

Com os olhos marejados, ela teve que retornar ao Vale de Lágrimas. Como tudo lhe parecia feio, se pensasse no Céu, mas ao mesmo tempo suave, se pensasse no Inferno!

Na escola, a apresentação de sua entrevista foi um sucesso. Vivamente impressionados e estimulados por seu testemunho, a professora e os colegas passaram a rezar diariamente. Quanto a Beatriz, tornou-se muito fervorosa após ter recebido tão grande graça. Ela compreendeu que a única relação existente entre o Céu e o Inferno é tomar a sério esta verdade: "Quem reza se salva, quem não reza se condena".

(Revista Arautos do Evangelho, Junho/2008, n. 78, p. 46-47)

 

 

 

| print | email Indicar |
1.1159420289855
Votos: 69
Todos os direitos de copyright reservados a Associação Católica Nossa Senhora de Fátima.