Padre Hans regressava recolhido, levando o Santíssimo ao peito, quando um jovem lenhador veio correndo a seu encontro gritando: "Um padre! Um padre!".
Flávia Cristina de Oliveira
Era uma manhã ensolarada. As montanhas do Tirol mostravam-se especialmente bonitas naquele dia de primavera. A neve já estava quase toda derretida, mas os cumes ainda brancos cintilavam sob os raios do Sol.
Padre Hans havia terminado de celebrar sua Missa matutina e se preparava para a catequese das crianças. Selecionava a matéria, consultava livros e escolhia alguns santinhos para premiar as crianças mais aplicadas, parte que mais agradava a todas elas na classe.
Encontrou uma linda gravura de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e a separou para quem soubesse responder à pergunta mais difícil.
Nesse momento entrou o sacristão, dizendo aflito:
- Padre Hans... Acaba de chegar a filha da Sra. Binzer, com a notícia de que sua mãe está muito mal, quiçá em seus últimos momentos, e pede que o senhor lhe leve o Viático. Mas não posso acompanhá-lo, pois hoje é o dia de folga do secretário paroquial, e alguém precisa cuidar da igreja.
- Não se preocupe, Rolf, já estive várias vezes na casa da Sra. Binzer e conheço bem todos os atalhos. Saindo imediatamente, conseguirei regressar a tempo ao meio-dia, se Deus quiser.
Sem demora, o bom pároco tomou os Santos Óleos e a teca com o Santíssimo, montou a cavalo e partiu, muito recolhido. Ia adorando Jesus Sacramentado, que levava pendente em seu pescoço, envolto numa bolsa de seda bordada com as iniciais JHS: Jesus Hóstia Santa.
O caminho estava belíssimo! As flores já haviam desabrochado, o regato corria suave, fazendo cantar suas águas cristalinas, e as árvores, outra vez recobertas de folhas, davam ao ar da primavera um frescor muito agradável. Os passarinhos cantavam e as borboletas pareciam bailar diante do cavalo, convidando o sacerdote a um passeio através dos pinheirais perfumados.
Padre Hans observou um pouco a beleza da paisagem, glorificando a Deus por tais dons concedidos ao homem, mas concentrava toda a sua atenção no Criador dessas maravilhas, o qual ele levava apertado ao peito. Assim recolhido, continuava o seu caminho, em atitude de adoração. Apenas pensou:
- Faz tempo que não desfruto um pouco do ar fresco desse bosque. Na volta vou aproveitar um pouquinho, e creio que não atrasarei o retorno...
Chegando à casa da Sra. Binzer, encontrou-a mesmo muito mal. Era uma camponesa piedosa, que sempre participara das atividades paroquiais, mas a idade e a enfermidade lhe haviam consumido todas as forças, e agora ela preparava sua alma para apresentar-se diante de Deus. Toda a família estava reunida ao redor de sua cama. Alguns choravam, e uma das filhas puxava os Mistérios Dolorosos do Rosário.
Padre Hans ministrou-lhe a Unção dos Enfermos, que ela recebeu com toda consciência e piedade. Mas ao dar-lhe a Comunhão, notou que, por um equívoco, havia levado duas partículas. Não era costume na época consumir duas hóstias ao mesmo tempo, e, ademais, a pobre senhora já quase não conseguia engolir. Isso contrariou um pouco o sacerdote, porque precisaria levar de volta à igreja o Santíssimo Sacramento; portanto, deveria regressar recolhido, em oração, sem poder desfrutar da primavera no bosque.
Depois de dizer à família umas breves palavras de reconforto e esperança, montou sua cavalgadura e retornava rezando.
Quando se aproximava do bosque, veio correndo a seu encontro um jovem lenhador, gritando ainda de longe:
- Um padre! Um padre!
Chegando ao lado do cavalo, o moço disse:
- Senhor Vigário, meu companheiro de trabalho acaba de sofrer um acidente. Uma árvore caiu sobre ele. Está morrendo e o único que consegue fazer é pedir um padre. Venha logo, senhor Vigário!
| Na manhã seguinte, Padre Hans contou o |
| belo fato às crianças de catecismo, e pre- |
| miou com um santinho aquele que soube |
| recitar de memória um trecho do Lembrai- |
| vos Edith Petitcler |
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