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O Vale das Cruzes

Naquele vale havia milhares de cruzes, de todos os tamanhos e formatos. Após muito vasculhar, Mestre Schmerzen agarrou com firmeza uma delas e disse: "É esta que eu quero!"

Martha Luca Ovalle.JPGMartha Lucía Ovalle

Mestre Schmerzen ergueu o martelo lentamente, olhou o pequenino prego que segurava na mão esquerda, corrigiu a pontaria e desferiu um rápido golpe... acertando em cheio o dedo polegar.

- Aiii!

Deu um salto e, nesse movimento brusco, derrubou uma lata de tinta para couros colocada ao seu lado. O líquido negro respingou nos móveis e em vários sapatos, esparramou- se pelo chão e começou a entrar pelas frestas do assoalho. Poucas tintas são tão penetrantes como a usada para tingir couros, e ele sabia bem disso. Sua oficina de mestre sapateiro estava um desastre completo.

Cinco pares de sapatos perdidos! E a lata que caíra era justamente a da tinta mais cara! Oh! Olhou desanimado para as botas e sapatos empilhados na prateleira, seu avental sujo, suas mãos pretas de tinta.

Vendo pela janela o filho mais velho que chegava de Würsburg a cavalo, com mais um pacote de couro, pensou mal-humorado: "Infeliz! Está condenado a ser outro sapateiro encardido como eu, e passar a vida entre couros mal-cheirosos e tintas pegajosas".

Na hora do almoço, mestre Schmerzen permaneceu calado. Prestava atenção na esposa, movendo- se de um lado para outro na cozinha. Ela era encantadora quando moça. Mas agora...

Pela tarde, esqueceu aberta a portinhola da oficina, e os filhos pequenos ali entraram para brincar, sujaram-se e puseram tudo em desordem..Enquanto, furioso, ele os empurrava para fora, lamentava-se: "É... não tenho dinheiro nem para montar uma oficina separada da residência".

Mestre Schmerzen estava ranzinza e continuava a lamuriar-se. A vida lhe parecia insuportável! No fim da tarde, resolveu ir desabafar seus azares com o primo, dono da pequena cervejaria estabelecida a poucos metros da sapataria. Gorducho e bonachão, enquanto servia um caneco de cerveja bávara para outro freguês, o primo o aconselhou:

- Ora... Pare de reclamar, Schimmy! Você está vendo tudo "cinzento" hoje! Nesta vida, cada um precisa carregar a sua cruz. Carregue a sua com ânimo!...

O argumento do primo não o convenceu. Ele pôs o chapéu na cabeça, despediu-se e saiu, dizendo para si mesmo: "Cruz... Cruz... Sim, cada um tem a sua, mas a minha é tão pesada!" Resmungando saiu da cervejaria, resmungando entrou em casa, e à noite, já deitado, murmurava: "É verdade, cada um deve carregar sua cruz, mas Deus bem podia arranjarme uma mais leve!" 

                                                                            * * *

Por fim, mestre Schmerzen adormeceu. No meio da noite, sentiu que o cobertor não protegia seus ombros, e, com os olhos ainda fechados, começou a tatear para encontrá- lo. Nada. Abriu os olhos, levantou- se e percebeu que não estava mais em sua casa. Aos poucos, a escuridão foi desaparecendo, e então ele viu à sua frente um jovem alto, vestido de branco e com grandes asas nas costas. Seria mesmo um anjo?

- Sim, sou o seu Anjo da Guarda. Deus ouviu as suas reclamações. Dê uma olhada ao redor.

O mestre sapateiro, então, observou que se encontrava no centro de um imenso vale cercado de altas montanhas. Ao

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  Mestre Schmerzen olhou o prego que segurava na mão equerda,
  corrigiu a pontaria e desferiu um rápido golpe     Joaquin Matus
longe, avistou algo parecido com um bosque, mas constituído de árvores e arbustos singulares: de tronco muito reto e aparentemente sem folhas.

- Não são árvores, Schmerzen. Vamos vê-las mais de perto.

Puseram-se a caminhar, e quando se aproximaram, notou que se tratava de... cruzes. Milhares delas. Talvez milhões. De todos os tamanhos e formatos. Claras, escuras. Umas de madeira, outras de metal, umas lisas, outras ásperas. Schmerzen ficou impressionado com a variedade: não havia sequer duas iguais, todas eram diferentes umas das outras. E cada uma trazia escrito o nome da pessoa a quem pertencia.

- Neste vale, Deus guarda a medida dos sofrimentos reservados por Ele para cada homem, cada mulher.

É o Vale das Cruzes. E como você se queixou tanto do peso da sua, o Altíssimo lhe permite escolher outra. Vá... procure à vontade e pegue a que quiser.

Schmerzen ficou inseguro por um instante, mas, lembrando-se de todas as amarguras de sua vida, embrenhou- se por aquela floresta de cruzes. Evitou as grandes e vasculhou a região onde se encontravam as menores. Pegou uma: pareceu-lhe muito áspera. Experimentou outra: tinha as arestas muito agudas. Após algum tempo de procura, encontrou uma bem pequena, mas, sendo de chumbo, pesava mais que as outras. Por fim, quase tropeçou numa minúscula. Ergueu-a: não tinha mais de um palmo de altura, era de madeira muito leve, bem lisa e sem pontas. Oh, sem dúvida, a cruz ideal! Agarrando-a com firmeza, como se alguém pudesse querer apossarse dela, disse ao Anjo:

- Quero esta aqui!

- É mesmo esta? Pois bem, meu amigo... leia o que está escrito nela.

O sapateiro colocou-a bem diante dos olhos e, com espanto, leu o nome: Mestre Schmerzen! Essa cruz, a mais leve, a mais lisa, a menos incômoda de todas, era a sua, da qual ele tanto se queixava!

                                                                          * * *

Um grito de vergonha e espanto saltou de sua garganta e... o despertou. Cheio de suor e com o coração disparado, mestre Schmerzen estava ainda deitado em sua cama. Levantou-se, foi correndo abrir a janela e exclamou, ao ver o resplandecente sol de primavera:

- Que dia bonito!

Mas então se deu conta de que era um dia exatamente como o anterior: o mesmo sol, a mesma primavera; em frente da janela, o filho mais velho, assobiando contente, descarregava mais alguns pacotes de couro. "Na verdade - pensou -, meu filho é dos poucos rapazes da cidade que têm emprego garantido". O ruído das crianças brincando perto da oficina trouxe- lhe à mente outro raciocínio otimista: "Afinal, é uma grande vantagem trabalhar ao lado de casa, pois assim posso estar o dia inteiro junto à minha família".

Da cozinha, subia o cheiro delicioso do café da manhã... E a voz da esposa:

- Schmerzen, meu bem... Venha logo, seus ovos mexidos vão esfriar!

"É... ela já não é mais a jovem de outrora - ponderou o mestre sapateiro -, mas é tão bondosa... E como cozinha bem!" Saindo da janela, percebeu que a pequena cruz estava sobre o criado-mudo. O Anjo ali a deixara, como lembrança...

Schmerzen tomou-a em suas mãos, olhando-a por alguns instantes, pensativo. Osculou-a, colocou-a reverentemente sobre a mesinha e, assobiando alegre, desceu para o café, e para continuar a vida.

(Revista Arautos do Evangelho, Nov/2006, n. 59, p. 46-47)

 

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