Haveria lugar para tristeza numa festa tão linda quanto a da Imaculada Conceição? E poderia a Mãe de Misericórdia não escutar orações feitas com tanto fervor por uma alma inocente no dia de sua Primeira Comunhão?
Fernanda Cordeiro da Fonseca
Maristela estava radiante! Não tinha ainda sete anos e já iria fazer sua Primeira Comunhão. Receber Nosso Senhor era seu maior desejo! Para isso, havia estudado o catecismo com afinco e, sobretudo, rezava muito, pedindo que sua alma estivesse sem mancha para receber Jesus na Sagrada Eucaristia. Mas algo inquietava aquele inocente coração: seu pai...
Fazia quase um ano que sua mãe partira para o Céu. Católica modelar, dona Jesuína ensinara à filha as verdades cristãs e, sobretudo, dera-lhe o bom exemplo na prática das virtudes. Mas seu esposo, Abelardo, vivia afastado da Igreja. Influenciado por maus companheiros de trabalho, havia se tornado um ateu e, coisa pior, um blasfemador. Mãe e filha rezavam empenhadamente por sua conversão, mas ele se mantinha obstinado.
Perdendo a esposa, Abelardo fechou- se ainda mais a tudo quanto dizia respeito à Religião. Porém, permitia que Margarida - a catequista da paróquia - levasse Maristela à Missa, todos os domingos. Só não imaginava que ela já estava se preparando para sua Primeira Comunhão...
A menina encontrava na oração consolo para as saudades da mãe. Na igreja, ajoelhava-se sempre diante de uma bela imagem da Virgem Imaculada e pedia-Lhe que Ela fosse agora, mais ainda do que antes, sua Mãe nesta terra e convertesse seu pai, que andava por caminhos tão funestos.
Num domingo de manhã, festa da Imaculada Conceição, todas as crianças da paróquia se engalanaram para homenagear a Virgem Maria, sobretudo aquelas que teriam a graça de receber Jesus por primeira vez. Maristela estava entre estas. Em seu belo traje branco - arranjado com esmero por Margarida -, parecia um Anjo, refletindo a pureza de seu coração.
Contudo, em vez de ficar com as outras crianças, preparando-se para o cortejo de entrada da cerimônia, Maristela estava encolhida num canto da igreja, perto do confessionário, chorando. O padre Mateus, já paramentado, viu-a de longe e foi-se aproximando. Pensava ele que talvez algum escrúpulo infantil estivesse perturbando a consciência da menina. Mas ela havia se confessado tão bem na véspera... Era uma alma inocente! Então perguntou-lhe:
- Maristela, minha filhinha, por que você está tão triste no momento de sua Primeira Comunhão?
- Ah, padre, todas as crianças estão aqui com seus pais e estou sozinha.. O senhor conhece meu pai... Ontem ele me bateu, ao saber que eu ia receber Jesus por primeira vez! E disse que, se comungasse mesmo, ia bater-me mais ainda!
O sacerdote emocionou-se ao ver como aquela alma, tão jovem, mas tão valente, estava disposta a receber os golpes do pai, para não deixar de receber as carícias de Nosso Senhor na Eucaristia. Contendo as lágrimas, disse-lhe carinhosamente:
- Não se aflija, minha pequena. Reze por ele no momento em que comungar.E quando regressar à sua casa, diga-lhe que quero falar com ele.
Maristela levantou seus olhinhos negros surpresos, marejados de lágrimas, e respondeu:
- Mas, padre, ele não virá! O senhor sabe que há anos ele não põe os pés na igreja. E vai bater-me ainda mais...
- Confiança, Maristela! Agora entre no cortejo, pois já vai começar a Missa.
A menina ficou inundada de consolação durante a cerimônia. As nuvens de incenso perfumado, o som majestoso do órgão, as músicas que pareciam cantadas por Anjos, o padre Mateus com seus belos paramentos, e, sobretudo, a imagem da Virgem Imaculada, que parecia sorrir, trouxeram-lhe enorme confiança. No momento da Comunhão, rezou com um fervor como nunca sentira na vida. Acabava de receber o próprio Jesus em seu coração!
Somente quando voltava para casa, lembrou-se do pai... Que diria ele? Tinha os olhos ainda um pouco inchados pelo pranto... Quando a viu, ele logo perguntou:
- Que aconteceu? Por que esteve chorando?
Ela lhe respondeu com candura:
- Chorei porque acabo de fazer minha Primeira Comunhão e todas as crianças estavam acompanhadas de seus pais neste grande dia... Só eu estava sozinha...
Abelardo abaixou a cabeça, mudo e pensativo. Mas quando Maristela comunicou-lhe que o padre Mateus queria falar com ele, teve uma explosão de fúria. Porém, não lhe bateu, como havia ameaçado...
Maristela não replicou. Em seu interior, rezava. Estava tão feliz por haver recebido Jesus em sua alma, que não queria perder o convívio com Ele. Nem quis tirar seu vestido branco de Primeira Comunhão.
O pai a observava de soslaio. A filha estava tão linda naquele alvo traje! Isso o fazia pensar em sua vida. Ele também tinha feito a Primeira Comunhão... Por que se afastara de Deus? Algo começava a inquietar sua alma, endurecida pelos numerosos pecados.
À tarde, tomado por um inesperado sentimento de ternura paternal, ele decidiu levar a menina para passear. De mãos dadas, caminhavam juntos pela rua. Maristela conversava animadamente, enquanto conduzia o pai rumo à Praça da Matriz... Abelardo se deixava levar por aquele "Anjo da Guarda", e talvez nem tenha percebido quando entraram na igreja.
O templo estava na penumbra. Os últimos raios do Sol ainda iluminavam os vitrais. Fazia tantos anos que Abelardo não entrava em uma igreja... Seu coração começou a bater mais depressa!
Maristela avistou o padre Mateus sentado no confessionário, rezando o Ofício Divino. Aproximou-se dele e disse:
- Padre, aqui está meu pai!
O sacerdote cumprimentou o homem com demonstrações de bondade, enquanto a menina se afastava discretamente. Abelardo, muito tocado pela graça, ajoelhou-se no confessionário e começou a aliviar sua alma de todos os pecados que a enfeavam.
Quando os sinos tocaram, anunciando a Missa das seis horas, o zeloso pároco ainda escutava aquelas palavras de arrependimento banhadas pelas lágrimas do feliz penitente, convertido pela inocência e pelas orações de sua pequena filha. Afinal, pôde ele também receber de novo Jesus Hóstia em seu coração contrito - depois de tantos anos! - no mesmo dia em que ela O recebera por primeira vez.
Do Céu, dona Jesuína contemplava com suma alegria a conversão do esposo. E na Terra, Maristela e o padre Mateus davam testemunho de como Deus nunca deixa de acolher quem dEle se aproxima com verdadeira contrição, e de como é poderosa a oração feita ao Altíssimo pela intercessão da Medianeira de todas as graças.
(Revista Arautos do Evangelho, Jul/2009, n. 91, p. 46-47)
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